Publicidade
Edição 14
Dezembro/2005

Publicidade
Caixa
Embraer
Imprimir

Forjada a ouro
Com planejamento, trabalho e muito profissionalismo, o Brasil construiu a melhor seleção de voleibol do mundo. Conheça os caminhos, os segredos e os heróis dessa façanha

Andréa Wolffenbüttel

Quem passar por Jaconé, uma das diversas praias do município de Saquarema, no Rio de Janeiro, e conseguir desviar os olhos do azul profundo e cristalino do mar, pode ser premiado ao ver, no outro lado da rua, um animado grupo praticando vôlei. Se prestar atenção, vai perceber que quem está sacando é Giba, considerado o melhor jogador de vôlei do mundo nas Olimpíadas de Atenas. Quem está recebendo é Escadinha, uma revelação. E quem está ao comando é, nada mais, nada menos, que Bernardinho. Sob o sol onipresente do litoral carioca, os campeões olímpicos treinam tranqüilamente. Para deleite dos fãs, eles estão isolados apenas por uma cerca de arame que circunda os 108 mil metros quadrados do Centro de Desenvolvimento de Voleibol de Saquarema, orgulho da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), e que faz com que Bernardinho encha o peito e diga: "Temos a melhor infra-estrutura do mundo, nenhuma seleção de vôlei dispõe de um centro de treinamento exclusivo como esse". O investimento de 5 milhões de reais na construção do centro parece natural para uma seleção que traz no peito duas medalhas olímpicas de ouro, uma de prata, a conquista da Copa do Mundo do Japão, em 2003, e cinco títulos de campeã da Liga Mundial. Mas é claro que as coisas não eram bem assim quando, em 1975, uma turma composta de ex-jogadores de vôlei assumiu o comando da CBV e começou a sonhar com o ouro olímpico.

Ambição O líder do grupo era Carlos Arthur Nuzman, que, graças ao trabalho desenvolvido à frente da CBV, galgou o posto de presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Ele é bem objetivo ao enumerar os elementos necessários para a construção de uma seleção campeã, além, obviamente, do talento dos atletas: planejamento, gerenciamento, profissionalismo e estrutura adequada. Atualmente, o principal responsável pelas seis seleções de vôlei, a infanto-juvenil, a juvenil e a adulta, tanto masculina como feminina, é Paulo Márcio Nunes da Costa, superintendente da CBV. Ele, um veterano que trabalha há 31 anos para a instituição, reforça a declaração de Nuzman. "Não tem segredo nenhum, basta ter uma idéia clara do que se quer alcançar e não se desviar jamais das metas estabelecidas." O caminho apontado por ambos, bem simples por sinal, serve para qualquer empreendimento, mas eles esqueceram de incluir dois elementos, sorte e habilidade, sem os quais não se ganha nenhuma partida. As condições que permitiriam ao Brasil galgar o pódio estavam tomando forma muito longe daqui, o que foi uma sorte. E coube à equipe de dirigentes brasileiros ter a habilidade para aproveitar o momento certo.

O vôlei só passou a ser considerado um esporte olímpico em 1964, e imediatamente a antiga União Soviética mostrou sua superioridade conquistando o ouro duas vezes seguidas. "Estabeleceu-se, então, uma divisão no terreno político-esportivo. Os Estados Unidos detinham a supremacia no basquete e a União Soviética no vôlei. Assim, por algum tempo, o vôlei foi uma especialidade dos países comunistas", explica o professor Marcos Campomar, estudioso de marketing esportivo da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP). Mas o equilíbrio foi rompido nos Jogos de Munique, em 1972, quando a União Soviética sagrou-se campeã no vôlei e no basquete. O feito provocou uma imediata reação norte-americana, que se preparou para dar uma resposta à altura. O empenho dos Estados Unidos em formar uma boa equipe acabou influenciando os países sob sua esfera e adaptando o vôlei a práticas mais próximas do mercado e mais distantes da proteção única do Estado.

Enquanto isso, no Brasil, a nova diretoria da CBV batalhava para conseguir sediar, em 1977, o primeiro campeonato mundial de vôlei juvenil. Contando com o apoio exclusivo do governo, eles se preocuparam em preparar instalações adequadas à competição e, acima de tudo, equipes à altura do vôlei mundial. Montaram duas concentrações, uma para a seleção masculina, no Rio de Janeiro, e outra para a feminina, em Belo Horizonte. "Nós providenciamos duas casas, onde instalamos a garotada. Eles moraram lá durante dez meses. Treinavam, estudavam em escolas próximas e eram cuidados por monitores", lembra Nunes da Costa, superintendente da CBV. Um período tão longo de concentração era algo absolutamente inédito. Para ter uma noção, os atletas da seleção que, no ano anterior, havia participado das Olimpíadas de Montreal treinaram juntos durante somente 30 dias. O mundial juvenil foi considerado uma vitória em todos os sentidos. Primeiro porque o país alojou 34 equipes que jogaram simultaneamente em quatro estados, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal. E depois porque o Brasil terminou em quarto lugar na categoria feminina e em terceiro lugar na masculina. Entre os jogadores que sacaram, bloquearam e levantaram as bolas dessa conquista havia nomes especiais: Renan, Amauri e Montanaro.

Promessa O talento apresentado pelos atletas brasileiros prometia um brilhante futuro, comprovado em 1980, nos Jogos de Moscou, quando a seleção masculina obteve seu melhor resultado olímpico até então, conquistando o quinto lugar e, em 1982, sagrando-se vice-campeã mundial. A nova mentalidade implantada no vôlei começava a dar seus primeiros frutos, e isso coincidiu com mudanças determinantes no universo esportivo. Uma alteração na Carta Olímpica, feita em 1981, eliminou a cláusula que restringia a participação exclusivamente a atletas amadores. E uma nova orientação do Comitê Olímpico Internacional permitiu que as seleções fossem patrocinadas por empresas. Com as novidades, as Olimpíadas de Los Angeles, de 1984, entraram para a história como os jogos da iniciativa privada. Eles foram realizados sem verba do governo norte-americano e produziram lucro pela primeira vez na história. Na cerimônia de encerramento, os organizadores registraram sobra de caixa de 225 milhões de dólares. A seleção brasileira, comandada por Bernard, Xandó, Montanaro e Renan, foi a segunda melhor do mundo, perdendo apenas para os donos da casa. Os jogadores trouxeram para casa a medalha de prata, e os dirigentes a idéia clara da estratégia a ser adotada para alcançar o primeiro lugar no pódio mundial.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>


Copyright © 2007 - DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.
Revista Desafios do Desenvolvimento - SBS Quadra 01, Edifício Bndes, sala 801 - Brasília - DF - Fone: (61) 3315-5188