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Forjada a ouro
Com planejamento, trabalho e muito profissionalismo, o Brasil construiu a melhor seleção de voleibol do mundo. Conheça os caminhos, os segredos e os heróis dessa façanha
Andréa Wolffenbüttel
Quem passar por Jaconé, uma das diversas praias do município de Saquarema,
no Rio de Janeiro, e conseguir desviar os olhos do azul profundo e cristalino
do mar, pode ser premiado ao ver, no outro lado da rua, um animado grupo
praticando vôlei. Se prestar atenção, vai perceber que quem está sacando
é Giba, considerado o melhor jogador de vôlei do mundo nas Olimpíadas
de Atenas. Quem está recebendo é Escadinha, uma revelação. E quem está
ao comando é, nada mais, nada menos, que Bernardinho. Sob o sol onipresente
do litoral carioca, os campeões olímpicos treinam tranqüilamente. Para
deleite dos fãs, eles estão isolados apenas por uma cerca de arame que
circunda os 108 mil metros quadrados do Centro de Desenvolvimento de Voleibol
de Saquarema, orgulho da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), e
que faz com que Bernardinho encha o peito e diga: "Temos a melhor infra-estrutura
do mundo, nenhuma seleção de vôlei dispõe de um centro de treinamento
exclusivo como esse". O investimento de 5 milhões de reais na construção
do centro parece natural para uma seleção que traz no peito duas medalhas
olímpicas de ouro, uma de prata, a conquista da Copa do Mundo do Japão,
em 2003, e cinco títulos de campeã da Liga Mundial. Mas é claro que as
coisas não eram bem assim quando, em 1975, uma turma composta de ex-jogadores
de vôlei assumiu o comando da CBV e começou a sonhar com o ouro olímpico.
Enquanto isso, no Brasil, a nova diretoria da CBV batalhava para conseguir
sediar, em 1977, o primeiro campeonato mundial de vôlei juvenil. Contando
com o apoio exclusivo do governo, eles se preocuparam em preparar instalações
adequadas à competição e, acima de tudo, equipes à altura do vôlei mundial.
Montaram duas concentrações, uma para a seleção masculina, no Rio de Janeiro,
e outra para a feminina, em Belo Horizonte. "Nós providenciamos duas casas,
onde instalamos a garotada. Eles moraram lá durante dez meses. Treinavam,
estudavam em escolas próximas e eram cuidados por monitores", lembra Nunes
da Costa, superintendente da CBV. Um período tão longo de concentração
era algo absolutamente inédito. Para ter uma noção, os atletas da seleção
que, no ano anterior, havia participado das Olimpíadas de Montreal treinaram
juntos durante somente 30 dias. O mundial juvenil foi considerado uma
vitória em todos os sentidos. Primeiro porque o país alojou 34 equipes
que jogaram simultaneamente em quatro estados, Rio de Janeiro, Minas Gerais,
São Paulo e Distrito Federal. E depois porque o Brasil terminou em quarto
lugar na categoria feminina e em terceiro lugar na masculina. Entre os
jogadores que sacaram, bloquearam e levantaram as bolas dessa conquista
havia nomes especiais: Renan, Amauri e Montanaro. 
Ambição O líder do grupo era Carlos Arthur Nuzman, que, graças ao trabalho
desenvolvido à frente da CBV, galgou o posto de presidente do Comitê Olímpico
Brasileiro (COB). Ele é bem objetivo ao enumerar os elementos necessários
para a construção de uma seleção campeã, além, obviamente, do talento
dos atletas: planejamento, gerenciamento, profissionalismo e estrutura
adequada. Atualmente, o principal responsável pelas seis seleções de vôlei,
a infanto-juvenil, a juvenil e a adulta, tanto masculina como feminina,
é Paulo Márcio Nunes da Costa, superintendente da CBV. Ele, um veterano
que trabalha há 31 anos para a instituição, reforça a declaração de Nuzman.
"Não tem segredo nenhum, basta ter uma idéia clara do que se quer alcançar
e não se desviar jamais das metas estabelecidas." O caminho apontado por
ambos, bem simples por sinal, serve para qualquer empreendimento, mas
eles esqueceram de incluir dois elementos, sorte e habilidade, sem os
quais não se ganha nenhuma partida. As condições que permitiriam ao Brasil
galgar o pódio estavam tomando forma muito longe daqui, o que foi uma
sorte. E coube à equipe de dirigentes brasileiros ter a habilidade para
aproveitar o momento certo.
O vôlei só passou a ser considerado um esporte olímpico em 1964, e imediatamente a antiga União Soviética mostrou sua
superioridade conquistando o ouro duas vezes seguidas. "Estabeleceu-se,
então, uma divisão no terreno político-esportivo. Os Estados Unidos detinham
a supremacia no basquete e a União Soviética no vôlei. Assim, por algum
tempo, o vôlei foi uma especialidade dos países comunistas", explica o
professor Marcos Campomar, estudioso de marketing esportivo da Faculdade
de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP). Mas o
equilíbrio foi rompido nos Jogos de Munique, em 1972, quando a União Soviética
sagrou-se campeã no vôlei e no basquete. O feito provocou uma imediata
reação norte-americana, que se preparou para dar uma resposta à altura.
O empenho dos Estados Unidos em formar uma boa equipe acabou influenciando
os países sob sua esfera e adaptando o vôlei a práticas mais próximas
do mercado e mais distantes da proteção única do Estado.
Promessa O talento apresentado pelos atletas brasileiros prometia um brilhante
futuro, comprovado em 1980, nos Jogos de Moscou, quando a seleção masculina
obteve seu melhor resultado olímpico até então, conquistando o quinto
lugar e, em 1982, sagrando-se vice-campeã mundial. A nova mentalidade
implantada no vôlei começava a dar seus primeiros frutos, e isso coincidiu
com mudanças determinantes no universo esportivo. Uma alteração na Carta
Olímpica, feita em 1981, eliminou a cláusula que restringia a participação
exclusivamente a atletas amadores. E uma nova orientação do Comitê Olímpico
Internacional permitiu que as seleções fossem patrocinadas por empresas.
Com as novidades, as Olimpíadas de Los Angeles, de 1984, entraram para
a história como os jogos da iniciativa privada. Eles foram realizados
sem verba do governo norte-americano e produziram lucro pela primeira
vez na história. Na cerimônia de encerramento, os organizadores registraram
sobra de caixa de 225 milhões de dólares. A seleção brasileira, comandada
por Bernard, Xandó, Montanaro e Renan, foi a segunda melhor do mundo,
perdendo apenas para os donos da casa. Os jogadores trouxeram para casa
a medalha de prata, e os dirigentes a idéia clara da estratégia a ser
adotada para alcançar o primeiro lugar no pódio mundial.

