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Edição 14
Dezembro/2005

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Por uma nova escola
Desconhecimento da realidade e disputa de recursos entre estados e municípios podem prejudicar o debate sobre a qualidade do ensino, e a decisão do Congresso acerca da criação de um novo fundo de financiamento para a rede pública

Eliana Simonneti

Desconhecimento da realidade e disputa de recursos

Uma questão deveria estar atraindo a atenção de todos, pois diz respeito principalmente às crianças, aos jovens e ao futuro do país. É a que envolve o atendimento mais abrangente e de melhor qualidade na rede pública de ensino. Hoje os indicadores brasileiros são piores do que os da Argentina, os do Uruguai e os do Chile, para ficar só na América do Sul. "O Brasil é um país rico, mas está muito atrasado. Nossas escolas têm quadro-negro e carteiras, mas estão se arrastando. É essencial que a sociedade se mobilize para que haja avanços rápidos no que diz respeito à qualidade de ensino", diz Cláudio Moura e Castro, um dos maiores especialistas em economia e educação do país, que foi consultor do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Organização Internacional do Trabalho. Ele lançou em agosto o livro Crônicas de uma Educação Vacilante. "Considerando nossa renda per capita, deveríamos ter um ensino muito mais qualificado", diz.

O Brasil atravessa um período crítico nessa área especialmente porque a fonte de recursos que vem sendo utilizada para a manutenção do ensino público fundamental vence em 2006. É o Fundo de Manutenção de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), criado com o objetivo de universalizar o acesso ao ensino fundamental em 1996, com validade de dez anos. O governo federal enviou ao Congresso a proposta de criação de um novo fundo, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação (Fundeb), para substituir o sistema em vigor. Tem qualidades e falhas. Demanda o envolvimento de todos para que sejam feitos ajustes antes da votação.
Hoje o giz, o salário dos professores, praticamente tudo o que diz respeito ao ensino fundamental é financiado pelo Fundef. Trata-se de um fundo que, além de transferir recursos para escolas públicas estaduais e municipais, equilibrando a situação em regiões mais pobres e mais ricas, redefiniu o papel da União, dos estados e dos municípios na oferta do ensino obrigatório e gratuito. Entretanto, ao privilegiar o acesso universal ao ensino fundamental, deixou de lado a concepção de educação básica contida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) - que compreende a educação infantil, fundamental e média como um único bloco - e, dessa forma, foi central para a ampliação da demanda pelo ensino médio sem que houvesse previsão de como atendê-la. Fez crescer o número de jovens que passaram para o nível médio e não estava preparado para atender a todos.

Segundo o ministro da Educação Fernando Haddad, "ao tratar exclusivamente do ensino fundamental, o Fundef acabou prejudicando o próprio ensino fundamental. A criança que não foi preparada na pré-escola não consegue enfrentar o currículo escolar. Além disso, fica desestimulada quando chega à oitava série sem a oportunidade de continuar os estudos no ensino médio. Portanto, entra no ensino fundamental despreparada e sai desestimulada. O Fundeb busca corrigir esse problema ao financiar todos os níveis da educação básica".

Há outras críticas ao Fundef. "Criou-se uma ilha de prosperidade na educação fundamental e as outras áreas ficaram abandonadas. A capacidade de estados investirem no ensino médio ficou estrangulada", diz Ricardo Paes de Barros, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). De acordo com Naércio Menezes Filho, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e da faculdade do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), "a transferência de recursos teve impacto positivo apenas no sistema municipal da região Nordeste, onde a infra-estrutura era mais deficiente. Além disso, como não se definiu que a progressão salarial dos professores depende de sua produtividade e dedicação, os melhores profissionais tendem a migrar para as escolas privadas".


Disparidades A proposta de criação do Fundeb é uma oportunidade de cobrir lacunas deixadas pelo Fundef. Em seus ensaios para a elaboração do texto da Proposta de Emenda Constitucional (PEC), o Ministério de Educação (MEC) pretendia que isso ocorresse, mas nas negociações, que levaram cerca de dois anos, muita coisa mudou. Na forma como foi enviada ao Congresso, a PEC 415/05 não contempla muitas necessidades. "O Fundeb não é muito original em comparação ao Fundef quanto ao tipo de recurso que entra ou não no fundo. Representa apenas um rearranjo das finanças educacionais no interior de cada estado e seus municípios", diz Jorge Abrahão, pesquisador do Ipea que se dedica à questão. "Permanece sem solução o problema redistributivo regional. O diferencial entre São Paulo e Maranhão, por exemplo, é muito forte e continuará assim." Isso porque a distribuição é feita de acordo com o número de crianças matriculadas por escola, sem considerar necessidades específicas acumuladas ao longo dos tempos em cada região. A disparidade entre os estados é gritante. E pode ser verificada também entre municípios de um mesmo estado.

Para ficar no exemplo citado por Abrahão, o Maranhão ostenta a terceira maior taxa de analfabetismo da região Nordeste, cuja média nesse quesito é o dobro da nacional. Tem a pior taxa de escolaridade e o mais baixo percentual de pessoas que chegam ao ensino superior. Além disso, possui altíssimo déficit educacional de gerações passadas. São Paulo, por sua vez, tem índices semelhantes aos da França. A Secretaria de Educação custeia cursos de mestrado para professores da rede pública e pretende que até o final deste ano todas as suas escolas tenham laboratório de informática (atualmente, a taxa é de 65%).
Segundo Beatriz Scavazza, coordenadora da Rede do Saber, um projeto de formação continuada que envolve 300 mil trabalhadores em escolas estaduais paulistas, "usando a tecnologia diminuímos nossos custos em 70%, obtivemos melhores resultados e estamos mudando a atitude das pessoas". Mas também há problemas. A Secretaria de Educação de São Paulo despejou cerca de 200 projetos sobre sua rede de 5,7 mil escolas - de meio ambiente, coleta de lixo, e por aí vai. "Os diretores e os professores estão sucumbindo frente a tantas tarefas. A questão das prioridades está muito confusa", diz Maria das Mercês Ferreira Sampaio, professora de Educação: História, Política, Sociedade, do programa de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que leciona para professores estaduais e orienta uma tese sobre os novos projetos da rede paulista.

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