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Centrinho: pequeno só no nome
Hospital universitário de reabilitação de anomalias da face e do palato é reconhecido como centro de excelência de pesquisa e atendimento pela Organização Mundial da Saúde e realiza 8 mil cirurgias gratuitas por ano.
Por Maysa Provedello, de Bauru
Respirar, comer, falar e engolir são atos automáticos para muita gente,
mas não para 5.800 brasileiros nascidos todos os anos. Seja de forma mínima,
seja de forma mais complicada, eles possuem alguma anomalia craniofacial.
As mais conhecidas são as fissuras de lábios e as aberturas de palato
(céu da boca). Esses problemas complicam, e muito, o desenvolvimento de
cada um desses indivíduos desde os primeiros dias de vida, pois dificultam
a alimentação. Na vida adulta, enfrentam preconceitos dos mais variados
tipos em relação às diferenças no jeito de falar - fanhoso - ou aos sinais
e cicatrizes que apresentam no rosto, que fecham portas para relacionamentos,
para o mercado de trabalho e exigem muito mais motivação e persistência
na busca de uma vida cotidiana como a de qualquer cidadão. 
Tratamentos podem durar até 20 anos e exigem várias cirurgias, além de acompanhamento periódico com profissionais especializados
Em Bauru, no interior de São Paulo, existe um lugar que realiza, ao mesmo
tempo, pesquisa de ponta e atendimento hospitalar e que apresenta as mais
modernas soluções para os obstáculos enfrentados por essas pessoas. Trata-se
do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade
de São Paulo (USP), que desde sua fundação, em 1967, ganhou da comunidade
local o nome de Centrinho. Conhecido nacional e internacionalmente, é
considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma referência em
atendimento e em pesquisa na área. "É um projeto que funciona mais ou
menos como uma família, vai crescendo, as necessidades vão crescendo,
os problemas também vão crescendo, mas as satisfações também são maiores ",
define José Alberto de Souza Freitas, cirurgião-dentista, superintendente
e um dos fundadores da instituição. O hospital é público e mantido com
recursos da USP para custeios administrativos e do Sistema Único de Saúde
(SUS) para a cobertura dos serviços prestados à população. As verbas são
administradas pela Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades
Craniofaciais (Funcraf), que desde 1985 também capta fundos para projetos
de pesquisas e doações. O Centrinho conta atualmente com um corpo de 693
funcionários diretos. Mas, se forem contabilizados estagiários e voluntários,
o número chega perto de 1.000.
No hospital, nenhum paciente é atendido em esquema de emergência e não
existem serviços pagos: tudo é público e ninguém passa na frente de ninguém.
Todas as consultas ou cirurgias são marcadas com antecedência, o que exige
organização impressionante. O setor responsável por agendar os horários,
recepcionar os pacientes e controlar os prontuários, por exemplo, conta
com 60 funcionários em tempo integral. Eles enfrentam o desafio de viabilizar
300 atendimentos diários no ambulatório e nas clínicas de psicologia ou
fonoaudiologia, além de 25 cirurgias, com pacientes de todo o país. "Cada
caso é muito diferente do outro, às vezes um paciente precisa de uma ou
duas cirurgias simples e outros precisam de 18 ou 20 durante toda a vida,
o que nos obriga a ficar em contato permanente com eles por muitos anos,
até o final da adolescência. Por isso encaixamos, de tempos em tempos,
todo esse pessoal na agenda dos médicos, entre cirurgias e avaliações ",
explica Luiz Fernando Ribeiro, médico pediatra e diretor clínico do hospital.
Ao longo de 38 anos de idade e após 65 mil pacientes atendidos - 47 mil
referentes a fissuras e o restante a outras especificidades, como as auditivas
- foi desenvolvido no Centrinho um conjunto inovador
de métodos cirúrgicos e outros procedimentos das áreas de atendimentos
e diagnósticos fisiológicos e odontopediátricos. Por isso, é tão relevante
o papel do hospital como um ponto de difusão de conhecimento, com vários
intercâmbios acadêmicos, além da realização de congressos mundiais a cada
dois anos para a disseminação de experiências e pesquisas ali realizadas,
bem como para receber especialistas do exterior e conhecer novas práticas
desenvolvidas em outros países. "Existem 200 novos procedimentos que
já praticamos no Centrinho e que são tão inovadores que o SUS não tem
ainda como nos pagar porque não estão cadastrados na tabela de condutas
hospitalares previstas. Esperamos que isso seja feito num futuro próximo ",
conta Freitas.
O hospital universitário de Bauru, ao contrário dos outros hospitais do
gênero no país, não está ligado a nenhuma faculdade de Medicina e tem
caráter independente, ou seja, é uma escola por si só. Ele nasceu da iniciativa
de professores da Faculdade de Odontologia de Bauru (USP), com a qual
ainda mantém algumas relações acadêmicas, mas não se pode mais dizer que
sejam instituições ligadas. A idéia de criar o Centrinho surgiu da constatação
de que as cirurgias corretivas em crianças com problemas labiopalatais
não resolviam os problemas de médio e longo prazo. Elas apenas permitiam
a alimentação básica nos primeiros meses e anos de vida, mesmo assim com
uma série de limitações. "Era fácil perceber que deixar a criança mais
bonitinha nos primeiros meses de vida, sem aquelas marcas de nascença,
não ia resolver, porque o quadro não seria nada bonito no futuro. Ela
teria problemas sérios de fala, de respiração e, sobretudo, de integração
depois de alguns anos ", lembra Freitas.

