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Edição 13
Novembro/2005

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Centrinho: pequeno só no nome
Hospital universitário de reabilitação de anomalias da face e do palato é reconhecido como centro de excelência de pesquisa e atendimento pela Organização Mundial da Saúde e realiza 8 mil cirurgias gratuitas por ano.

Por Maysa Provedello, de Bauru

Divulgação
Tratamentos podem durar até 20 anos e exigem várias cirurgias, além de acompanhamento periódico com profissionais especializados

Respirar, comer, falar e engolir são atos automáticos para muita gente, mas não para 5.800 brasileiros nascidos todos os anos. Seja de forma mínima, seja de forma mais complicada, eles possuem alguma anomalia craniofacial. As mais conhecidas são as fissuras de lábios e as aberturas de palato (céu da boca). Esses problemas complicam, e muito, o desenvolvimento de cada um desses indivíduos desde os primeiros dias de vida, pois dificultam a alimentação. Na vida adulta, enfrentam preconceitos dos mais variados tipos em relação às diferenças no jeito de falar - fanhoso - ou aos sinais e cicatrizes que apresentam no rosto, que fecham portas para relacionamentos, para o mercado de trabalho e exigem muito mais motivação e persistência na busca de uma vida cotidiana como a de qualquer cidadão.

Em Bauru, no interior de São Paulo, existe um lugar que realiza, ao mesmo tempo, pesquisa de ponta e atendimento hospitalar e que apresenta as mais modernas soluções para os obstáculos enfrentados por essas pessoas. Trata-se do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (USP), que desde sua fundação, em 1967, ganhou da comunidade local o nome de Centrinho. Conhecido nacional e internacionalmente, é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma referência em atendimento e em pesquisa na área. "É um projeto que funciona mais ou menos como uma família, vai crescendo, as necessidades vão crescendo, os problemas também vão crescendo, mas as satisfações também são maiores ", define José Alberto de Souza Freitas, cirurgião-dentista, superintendente e um dos fundadores da instituição. O hospital é público e mantido com recursos da USP para custeios administrativos e do Sistema Único de Saúde (SUS) para a cobertura dos serviços prestados à população. As verbas são administradas pela Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais (Funcraf), que desde 1985 também capta fundos para projetos de pesquisas e doações. O Centrinho conta atualmente com um corpo de 693 funcionários diretos. Mas, se forem contabilizados estagiários e voluntários, o número chega perto de 1.000.

No hospital, nenhum paciente é atendido em esquema de emergência e não existem serviços pagos: tudo é público e ninguém passa na frente de ninguém. Todas as consultas ou cirurgias são marcadas com antecedência, o que exige organização impressionante. O setor responsável por agendar os horários, recepcionar os pacientes e controlar os prontuários, por exemplo, conta com 60 funcionários em tempo integral. Eles enfrentam o desafio de viabilizar 300 atendimentos diários no ambulatório e nas clínicas de psicologia ou fonoaudiologia, além de 25 cirurgias, com pacientes de todo o país. "Cada caso é muito diferente do outro, às vezes um paciente precisa de uma ou duas cirurgias simples e outros precisam de 18 ou 20 durante toda a vida, o que nos obriga a ficar em contato permanente com eles por muitos anos, até o final da adolescência. Por isso encaixamos, de tempos em tempos, todo esse pessoal na agenda dos médicos, entre cirurgias e avaliações ", explica Luiz Fernando Ribeiro, médico pediatra e diretor clínico do hospital.

Ao longo de 38 anos de idade e após 65 mil pacientes atendidos - 47 mil referentes a fissuras e o restante a outras especificidades, como as auditivas - foi desenvolvido no Centrinho um conjunto inovador de métodos cirúrgicos e outros procedimentos das áreas de atendimentos e diagnósticos fisiológicos e odontopediátricos. Por isso, é tão relevante o papel do hospital como um ponto de difusão de conhecimento, com vários intercâmbios acadêmicos, além da realização de congressos mundiais a cada dois anos para a disseminação de experiências e pesquisas ali realizadas, bem como para receber especialistas do exterior e conhecer novas práticas desenvolvidas em outros países. "Existem 200 novos procedimentos que já praticamos no Centrinho e que são tão inovadores que o SUS não tem ainda como nos pagar porque não estão cadastrados na tabela de condutas hospitalares previstas. Esperamos que isso seja feito num futuro próximo ", conta Freitas.

O hospital universitário de Bauru, ao contrário dos outros hospitais do gênero no país, não está ligado a nenhuma faculdade de Medicina e tem caráter independente, ou seja, é uma escola por si só. Ele nasceu da iniciativa de professores da Faculdade de Odontologia de Bauru (USP), com a qual ainda mantém algumas relações acadêmicas, mas não se pode mais dizer que sejam instituições ligadas. A idéia de criar o Centrinho surgiu da constatação de que as cirurgias corretivas em crianças com problemas labiopalatais não resolviam os problemas de médio e longo prazo. Elas apenas permitiam a alimentação básica nos primeiros meses e anos de vida, mesmo assim com uma série de limitações. "Era fácil perceber que deixar a criança mais bonitinha nos primeiros meses de vida, sem aquelas marcas de nascença, não ia resolver, porque o quadro não seria nada bonito no futuro. Ela teria problemas sérios de fala, de respiração e, sobretudo, de integração depois de alguns anos ", lembra Freitas.

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