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Edição 13
Novembro/2005

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Conhecimento tem de ser protegido
Depois de desenhado o arcabouço de uma política industrial e uma lei de incentivo à inovação, a missão é criar uma forte cultura de proteção à propriedade industrial.

Por Lia Vasconcelos, de Brasília

Orlando

Como avaliar se um país é inovador? Em meio a tantos indicadores, um dos mais freqüentemente usados é a quantidade de pedidos de patentes anualmente depositados no escritório de marcas e patentes dos Estados Unidos (USPTO, da sigla em inglês). De acordo com os últimos dados coletados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), em 2000 o Brasil depositou 220 pedidos de patentes no USPTO, dos quais 98 foram concedidos, enquanto os Estados Unidos depositaram 164.795. Essa comparação talvez não seja justa, mas, para ter uma idéia, a Coréia do Sul, outro país de industrialização recente, depositou naquele mesmo ano 5.705 pedidos de patentes de invenção, dos quais 3.314 foram concedidos. Os números são eloqüentes e refletem a baixa capacidade de o Brasil transformar o conhecimento científico em produto ou processo tecnológico. Também indicam que é necessário desenvolver uma cultura de proteção à propriedade intelectual, chave para o desenvolvimento da indústria e para a atração de investimento estrangeiro.

Por trás dessa constatação está um velho e conhecido problema: as falhas estruturais impedem que o país tenha uma área de pesquisa e desenvolvimento mais forte tanto nas universidades e nos institutos de pesquisa como na iniciativa privada, ambiente por excelência da inovação. Para isso, contribuem o baixo número de cientistas e engenheiros nos departamentos de pesquisa e desenvolvimento das empresas e a falta de sintonia entre o mundo organizacional e o acadêmico. Em 2001, trabalhavam nas empresas privadas apenas 23% dos 123 mil cientistas e engenheiros brasileiros e 72% estavam nas universidades. O baixo nível de escolaridade da força de trabalho em geral também é fator decisivo para fomentar a inovação. Nesse cenário, o Brasil encontra-se numa posição intermediária entre os países que buscam colocar a produção de conhecimento no centro do desenvolvimento econômico e social.

O Brasil investe cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento, enquanto os países mais desenvolvidos aplicam de 2% a 3%. Para vencer essa barreira não é preciso apenas mais dinheiro ou incentivos fiscais. Também é necessário desenvolver uma política consistente de proteção à propriedade intelectual, pois a patente nada mais é do que uma forma de proteger certos conhecimentos destinados à indústria.

Diferencial Para Nizete Lacerda Araújo, advogada e assessora de propriedade intelectual da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), ainda é incipiente a preocupação com a propriedade intelectual no Brasil, mas vem aumentando a consciência, tanto na academia como no setor privado, de que isso pode ser um diferencial competitivo. "A mudança de paradigma é um processo de médio e longo prazo. É preciso também que o país se dê conta de que não há contradição entre publicação e proteção. A equação é simples: primeiro se protege, depois se publica ", completa. A mudança de cultura, segundo a advogada, exige maior sintonia entre o mercado e o setor acadêmico e uma valorização do conhecimento produzido.

Também é preciso alinhar com essa nova realidade as agências de fomento, que financiam a pesquisa e o desenvolvimento. "Atualmente elas usam a publicação de artigos em revistas científicas para renovação e concessão de bolsas. Estamos tentando fazer com que o número de pedidos de patentes também seja usado para a avaliação de um pesquisador ou um grupo de pesquisa ", explica Araújo

Apesar de ainda não existir uma política nacional de propriedade intelectual estruturada e madura, começam a despontar experiências bem-sucedidas, indicadoras de que a maior valorização do tema no interior das organizações pode provocar resultados surpreendentes. Um dos centros de excelência é a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro. Outro é a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que em 2003 criou a Inova Unicamp para fortalecer as parcerias da universidade com empresas, órgãos de governo e demais organizações da sociedade. Uma das missões da agência é fazer um trabalho constante e permanente de conscientização para mostrar a importância de proteger o conhecimento ali produzido. Com quase 2 mil pesquisadores com nível de doutorado, a Unicamp patenteou várias criações tecnológicas inovadoras, que estão prontas para desenvolvimento e transferência para a indústria. Já registrou 400 patentes, das quais oito internacionais, distribuídas em áreas de aplicações, como medicina, saúde e nutrição, produção industrial, tecnologia da informação e telecomunicações, produção rural e agronegócios e exploração de recursos naturais. É a universidade brasileira com o maior volume de patentes depositadas.

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