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Edição 12
Outubro/2004

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Fiscais da saúde dos alimentos
O Instituto Biodinâmico é a principal empresa que atesta a qualidade dos produtos da agricultura orgânica brasileira, um negócio em processo de profissionalização

Por Ottoni Fernandes Jr., de Botucatu

Sommer Andrey
A equipe que trabalha na sede do Instituto Biodinâmico, em Botucatu, no interior de São Paulo

Há alguns anos, consumir alimentos orgânicos era coisa de alternativos, de hippies. Mas a preocupação com a saúde, uma vez que o ser humano é aquilo que come, fez a venda de alimentos orgânicos crescer 30% ao ano no Brasil, e a área dedicada a esse tipo de agricultura, pecuária ou fruticultura já atingia 811 mil hectares em 2003, com expansão de 200% desde 2001, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Nos supermercados dos grandes centros urbanos brasileiros, já existem espaços exclusivos para produtos orgânicos, do pó de café à carne bovina. Mas o grande mercado para os alimentos orgânicos produzidos no Brasil são os países europeus, os Estados Unidos e o Japão, que consomem açúcar, café, soja, suco de laranja e frutas tropicais. A produção brasileira de orgânicos está estimada em 130 milhões de dólares anuais e cerca de 85% é exportada. No entanto, os produtores só conseguem colocar seus produtos nas gôndolas dos supermercados dos países desenvolvidos depois que passaram por rigorosos testes.

Quem garante a origem e a qualidade dos produtos orgânicos são as empresas certificadoras, que rastreiam todas as fases do processo, do cultivo ao empacotamento, e asseguram que os alimentos são produzidos sem o uso de agrotóxicos, adubos químicos, hormônios de crescimento ou antibióticos. Mudas ou sementes modificadas geneticamente também são proibidas, a produção tem que ser feita sem agredir o meio ambiente, e mais: exigem respeito aos direitos sociais dos trabalhadores. No Brasil, o consumidor de alimentos orgânicos deve procurar na embalagem um selo que ateste a sua qualidade, assegurando que não foram produzidos com emprego de substâncias inadequadas e em desacordo com os padrões éticos.

Existem no Brasil 24 empresas que fazem a certificação de alimentos orgânicos, mas somente sete têm credenciamento de certificadoras do exterior e podem garantir os produtos orgânicos exportados. Segundo o MDA, a maior das certificadoras brasileiras é o Instituto Biodinâmico (IBD), com sede em Botucatu, no estado de São Paulo, e sua trajetória é um símbolo da modernização da agricultura orgânica brasileira. Nasceu em 1986, para divulgar a agricultura biodinâmica no Brasil, fez suas primeiras certificações de lavouras de cacau e café em 1990 e hoje é a única das empresas nacionais credenciada para atribuir selo de qualidade orgânica de acordo com os padrões adotados nos Estados Unidos, na União Européia e no Japão.

Logo na sala de entrada da sede do IBD, na frente da Praça São José, dominada por uma pequena e graciosa igreja, estão expostos em uma prateleira os produtos das empresas que receberam o selo de qualidade orgânica da instituição - das embalagens do açúcar Native, uma marca pioneira, a um travesseiro feito com fibras orgânicas. Também pode-se encontrar vinho orgânico produzido no Vale do São Francisco, no Nordeste, diversas variedades de pinga e até mesmo camarão orgânico. Mas o centro nervoso das atividades da empresa está numa sala dos fundos, onde cinco funcionários controlam as atividades dos 40 inspetores do IBD, que operam em diversas regiões do Brasil. Todos receberam treinamento em Botucatu e dominam o rigoroso manual que define o que pode ser feito e o que é proibido na produção de alimentos orgânicos. Logo que um candidato a receber o selo de qualidade orgânica se inscreve no IBD, um inspetor é enviado à propriedade. Amostras da terra são encaminhadas a um laboratório certificado de acordo com os padrões europeus para verificar se estão contaminadas com resíduos de adubos químicos ou agrotóxicos. "O inspetor também examina a condição das matas ciliares, a proteção dos mananciais e se os filhos dos trabalhadores freqüentam a escola, entre as centenas de itens que deve avaliar ", explica Alexandre Harkaly, vice-presidente executivo da certificadora.

Resíduos Com tanto rigor, a transição para a atividade orgânica não é imediata. Relações trabalhistas têm de mudar e os resíduos do sistema tradicional depositados no solo têm de ser eliminados, o que exige um período de transição de 12 meses para as culturas anuais e 18 meses para as perenes, como as frutíferas, segundo informa Harkaly. Na Europa, o período de transição pode durar até três anos. O candidato a produtor orgânico paga uma taxa de matrícula, que varia de 300 a 5 mil reais, de acordo com o faturamento da propriedade ou empreendimento, e uma anuidade, além da taxa para cada certificado de venda de produção, que pode ser de até 1% do valor da fatura. Entre os 3.141 produtores certificados pelo IBD, 90% são produtores de pequeno porte, que ocupam 30% da área total inscrita no instituto. Essa realidade faz com que o IBD, apoiado pela Associação Brasileira de Agricultura Orgânica (AAB), estimule a formação de grupos de produtores. Já existem 106 grupos inscritos no IBD, que arcam com o custo de matrícula e certificação e assim diminuem as despesas para cada associado, explica Jorge Vailati, gerente de certificação do IBD. Cada um dos produtores matriculados é visitado pelo menos uma vez por ano pelos inspetores, que usam até mesmo equipamentos de geoposicionamento (GPS, da sigla em inglês), por exemplo, para demarcar a posição de colméias colocadas em áreas nativas e assegurar que não existam culturas convencionais, aditivadas com agrotóxicos, a menos de 3 quilômetros de distância. A comprovação é feita com o uso de fotos da região tiradas por câmaras fotográficas instaladas em satélites.

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