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Fiscais da saúde dos alimentos
O Instituto Biodinâmico é a principal empresa que atesta a qualidade dos produtos da agricultura orgânica brasileira, um negócio em processo de profissionalização
Por Ottoni Fernandes Jr., de Botucatu
Há alguns anos, consumir alimentos orgânicos era coisa de alternativos,
de hippies. Mas a preocupação com a saúde, uma vez que o ser humano é
aquilo que come, fez a venda de alimentos orgânicos crescer 30% ao ano
no Brasil, e a área dedicada a esse tipo de agricultura, pecuária ou fruticultura
já atingia 811 mil hectares em 2003, com expansão de 200% desde 2001,
segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Nos supermercados
dos grandes centros urbanos brasileiros, já existem espaços exclusivos
para produtos orgânicos, do pó de café à carne bovina. Mas o grande mercado
para os alimentos orgânicos produzidos no Brasil são os países europeus,
os Estados Unidos e o Japão, que consomem açúcar, café, soja, suco de
laranja e frutas tropicais. A produção brasileira de orgânicos está estimada
em 130 milhões de dólares anuais e cerca de 85% é exportada. No entanto,
os produtores só conseguem colocar seus produtos nas gôndolas dos supermercados
dos países desenvolvidos depois que passaram por rigorosos testes. 
A equipe que trabalha na sede do Instituto Biodinâmico, em Botucatu, no interior de São Paulo
Quem garante a origem e a qualidade dos produtos orgânicos são as empresas
certificadoras, que rastreiam todas as fases do processo, do cultivo ao
empacotamento, e asseguram que os alimentos são produzidos sem o uso de
agrotóxicos, adubos químicos, hormônios de crescimento ou antibióticos.
Mudas ou sementes modificadas geneticamente também são proibidas, a produção
tem que ser feita sem agredir o meio ambiente, e mais: exigem respeito
aos direitos sociais dos trabalhadores. No Brasil, o consumidor de alimentos
orgânicos deve procurar na embalagem um selo que ateste a sua qualidade,
assegurando que não foram produzidos com emprego de substâncias inadequadas
e em desacordo com os padrões éticos.
Existem no Brasil 24 empresas que fazem a certificação de alimentos orgânicos,
mas somente sete têm credenciamento de certificadoras do exterior e podem
garantir os produtos orgânicos exportados. Segundo o MDA, a maior das
certificadoras brasileiras é o Instituto Biodinâmico (IBD), com sede em
Botucatu, no estado de São Paulo, e sua trajetória é um símbolo da modernização
da agricultura orgânica brasileira. Nasceu em 1986, para divulgar a agricultura
biodinâmica no Brasil, fez suas primeiras certificações
de lavouras de cacau e café em 1990 e hoje é a única das empresas nacionais
credenciada para atribuir selo de qualidade orgânica de acordo com os
padrões adotados nos Estados Unidos, na União Européia e no Japão.
Logo na sala de entrada da sede do IBD, na frente da Praça São José, dominada
por uma pequena e graciosa igreja, estão expostos em uma prateleira os
produtos das empresas que receberam o selo de qualidade orgânica da instituição
- das embalagens do açúcar Native, uma marca pioneira, a um travesseiro
feito com fibras orgânicas. Também pode-se encontrar vinho orgânico produzido
no Vale do São Francisco, no Nordeste, diversas variedades de pinga e
até mesmo camarão orgânico. Mas o centro nervoso das atividades da empresa
está numa sala dos fundos, onde cinco funcionários controlam as atividades
dos 40 inspetores do IBD, que operam em diversas regiões do Brasil. Todos
receberam treinamento em Botucatu e dominam o rigoroso manual que define
o que pode ser feito e o que é proibido na produção de alimentos orgânicos.
Logo que um candidato a receber o selo de qualidade orgânica se inscreve
no IBD, um inspetor é enviado à propriedade. Amostras da terra são encaminhadas
a um laboratório certificado de acordo com os padrões europeus para verificar
se estão contaminadas com resíduos de adubos químicos ou agrotóxicos.
"O inspetor também examina a condição das matas ciliares, a proteção dos
mananciais e se os filhos dos trabalhadores freqüentam a escola, entre
as centenas de itens que deve avaliar ", explica Alexandre Harkaly, vice-presidente
executivo da certificadora.
Resíduos Com tanto rigor, a transição para a atividade
orgânica não é imediata. Relações trabalhistas têm de mudar e os resíduos
do sistema tradicional depositados no solo têm de ser eliminados, o que
exige um período de transição de 12 meses para as culturas anuais e 18
meses para as perenes, como as frutíferas, segundo informa Harkaly. Na
Europa, o período de transição pode durar até três anos. O candidato a
produtor orgânico paga uma taxa de matrícula, que varia de 300 a 5 mil
reais, de acordo com o faturamento da propriedade ou empreendimento, e
uma anuidade, além da taxa para cada certificado de venda de produção,
que pode ser de até 1% do valor da fatura. Entre os 3.141 produtores certificados
pelo IBD, 90% são produtores de pequeno porte, que ocupam 30% da área
total inscrita no instituto. Essa realidade faz com que o IBD, apoiado
pela Associação Brasileira de Agricultura Orgânica (AAB), estimule a formação
de grupos de produtores. Já existem 106 grupos inscritos no IBD, que arcam
com o custo de matrícula e certificação e assim diminuem as despesas para
cada associado, explica Jorge Vailati, gerente de certificação do IBD.
Cada um dos produtores matriculados é visitado pelo menos uma vez por
ano pelos inspetores, que usam até mesmo equipamentos de geoposicionamento
(GPS, da sigla em inglês), por exemplo, para demarcar a posição de colméias
colocadas em áreas nativas e assegurar que não existam culturas convencionais,
aditivadas com agrotóxicos, a menos de 3 quilômetros de distância. A comprovação
é feita com o uso de fotos da região tiradas por câmaras fotográficas
instaladas em satélites.

