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Limites para inovar
Apenas 23% dos 127 mil cientistas e engenheiros existentes no país trabalham em empresas privadas, mas novos incentivos procuram mudar esta realidade
Por Lia Vasconcelos, de Brasília
Cresce no Brasil a consciência de que é necessário investir em pesquisa
para garantir aumento de produtividade na atividade econômica e produzir
um salto tecnológico. O exemplo do agronegócio brasileiro, que conquistou
padrão de excelência em escala mundial, sustentado pelo desenvolvimento
tecnológico, comprova que vale a pena trilhar esse caminho. Mas ainda
há um longo percurso pela frente, especialmente no setor industrial, pois
as empresas instaladas no país investem pouco em pesquisa e desenvolvimento
(P&D) voltados para a inovação tecnológica. E o risco de perder espaço
para outros países é grande, como já lembrava na década de 30 o físico
neozelandês Ernest Rutherford, um dos pioneiros da física nuclear: "A
ciência está destinada a desempenhar um papel cada vez mais preponderante
na produção industrial. E as nações que deixarem de entender essa lição
serão inevitavelmente relegadas à posição de nações escravas: cortadoras
de lenha e carregadoras de água para os povos mais esclarecidos ". 
Funcionário da Lupatech, em Caxias do Sul (RS), confere especificação de peça em linha de produção
De maneira ainda tímida, o Brasil começa a perceber esse risco. Depois
de aprovar a Lei de Inovação, no final do ano passado, o governo editou
em junho uma medida provisória com incentivos fiscais para que as empresas
contratem engenheiros e cientistas voltados para a inovação tecnológica
e a pesquisa aplicada. Até então, o tema P&D ficava praticamente restrito
ao ambiente acadêmico. Dos 123 mil cientistas e engenheiros brasileiros,
72% estavam nas universidades e 23% nas empresas privadas, em 2001, como
revelou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em seu artigo "A
universidade, a empresa e a pesquisa que o país precisa ". Nos Estados
Unidos, a relação é inversa: 79% de quase 1 milhão de cientistas e pesquisadores
estão na iniciativa privada e 13% estão no ambiente acadêmico. A Coréia
do Sul, que investiu pesadamente em pesquisa aplicada nos últimos 25 anos,
tem 100 mil cientistas e engenheiros trabalhando nas empresas.
"Essa deficiência causa profundos danos à capacidade de competir da empresa
brasileira, uma vez que a inovação tecnológica é criada muito mais na
empresa do que na universidade, cuja missão específica é educar profissionais
e gerar conhecimentos fundamentais ", sustenta Brito. O estudo "Inovações,
padrões tecnológicos e desempenho das firmas industriais brasileiras ",
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), comprova as conseqüências
da concentração dos esforços de pesquisa no ambiente acadêmico: de um
universo de 72 mil empresas com mais de dez funcionários, apenas 1,7%
do total promove inovações tecnológicas e diferencia seus produtos. A
boa notícia é que, segundo o estudo, as empresas de capital nacional têm
realizado maior esforço de P&D interno do que as estrangeiras (leia mais
na seção Indicadores).
Um bom exemplo vem da Lupatech, empresa de metalurgia e mecânica fina,
de Caxias do Sul, que já trazia o gene da inovação desde quando foi fundada,
em 1980. Lá, a presença de cientistas e engenheiros envolvidos com pesquisa
e desenvolvimento foi crucial para a obtenção da patente mundial de um
sistema usado no processo de moldagem por injeção de pós metálicos e cerâmicos.
Waldyr Ristow Júnior, gerente de tecnologia da empresa, conta que começou
a trabalhar na companhia em 1993 com a missão de coordenar a transferência
de tecnologia que a Lupatech acabara de adquirir da Parmatech, da Califórnia.
Era uma das técnicas mais avançadas na área de metalurgia para a fabricação
de ferramentas de precisão usadas na montagem de circuitos integrados
na indústria de informática. "Eu já tinha terminado o mestrado e o doutorado
na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde estava há 15 anos,
e queria ter uma experiência na indústria. Queria transformar conhecimento
em riqueza ", diz. Com essa convicção, Ristow desistiu de ir para uma
universidade na Inglaterra, continuar sua pesquisa em engenharia de materiais,
e optou pela Lupatech.
"Dentro da universidade, as pessoas ficam limitadas e não conhecem os
projetos de inovação da indústria nacional. É fundamental que as empresas
aproveitem os talentos da academia. Esse movimento ainda é embrionário
no Brasil, mas está começando ", acredita. Por outro lado, também é importante
que os cientistas e engenheiros que trabalham no setor privado acompanhem
a produção científica acadêmica. A participação em congressos e seminários,
é um meio de atualização constante e permanente. Foi o que fez Ristow,
e com bons resultados. "Continuo em contato com os colegas da UFSC e aproveitei
muito em benefício da empresa. A patente registrada pela Lupatech no exterior
deve muito a essa troca ", afirma.

