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Comércio Internacional
Muralha chinesa
O Brasil exporta basicamente produtos primários para a China e não consegue romper as barreiras e vender manufaturados de alto valor agregado, o que pode levar a um déficit no comércio com o gigante oriental em 2006
Por Andréa Wolffenbüttel, de São Paulo
O centro de gravidade dos negócios mundiais está se deslocando do Atlântico,
onde se manteve nos últimos três séculos, para o Pacífico. A afirmação
não é de um alto funcionário do Partido Comunista da China, mas sim do
ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, em artigo publicado
no jornal The Washington Post, em meados do mês passado. A guinada começou
há três décadas, mas se tornou irreversível quando o país mais populoso
do mundo decidiu entrar no jogo capitalista e passou a crescer aceleradamente.
Em 34 anos, a China saiu de um sistema fechado para a situação atual:
atrai volumes crescentes de investimentos e controla cerca de 11% de todo
o comércio do planeta. Em 2004, os chineses importaram cerca de 400 bilhões
de dólares, mais de quatro vezes o volume total das exportações brasileiras
no mesmo período. E qual foi a fatia dessa imensa demanda que coube ao
Brasil? Aproximadamente 1,5%, o que representa algo em torno de 5,5 bilhões
de dólares. 
A dimensão do nosso quinhão pode parecer modesta, mas corresponde rigorosamente
à nossa participação no comércio mundial. O que preocupa não é o valor
da fatura, mas a descrição das mercadorias. Um olhar sobre nosso comércio
com a China dá um banho de água fria no orgulho brasileiro de ter conseguido
elevar o valor agregado da pauta de exportações. O modelo café e cana-de-açúcar foi mesmo deixado para trás, mas seu
lugar foi ocupado pela dupla soja e minério de ferro, pelo menos quando
se trata da China. No ano passado, esses dois produtos representaram 65%
de todas as nossas vendas para o mercado chinês. Seguidos por outros com
nível de industrialização semelhante, que são pasta de madeira, óleo bruto
de petróleo e fumo. Nos primeiros cinco meses de 2005, o cenário se alterou
levemente, mas o padrão soja-ferro respondeu por metade das vendas para
a China. Se esse é um perfil atípico para o Brasil,
como exportador, também é estranho para a China, como importadora. No
ano passado, para cada dólar gasto pelos chineses na importação de produtos
primários foram consumidos 3,5 dólares na aquisição de produtos industrializados
estrangeiros. E por que será que o Brasil não consegue aproveitar melhor
o mercado chinês para vender produtos com maior valor agregado?
Como costuma acontecer com as questões relativas à China, a resposta não
é simples. Porém, entre as diversas interpretações há um ponto em que
todos concordam: o Brasil é um descobridor tardio da China, até mesmo
comparado com outros países latino-americanos, como o Chile e o México.
"Para dar uma noção do descaso, antes da feira Brasil-China de 2002, o
último evento de promoção ao comércio entre os dois países aconteceu em
1986. Foram 16 anos sem nenhuma iniciativa brasileira. Nesse período,
outros fornecedores ocuparam o espaço que poderia ser do Brasil ", conta
Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China.
Apesar do tempo perdido, ele acredita que temos todas as condições para
colocar nossos produtos industrializados nos contêineres que partem para
a China. Como exemplo, menciona o caso de um fabricante de torneiras e
chuveiros elétricos que acaba de fechar uma grande venda. Não se trata
exatamente de um produto de alta tecnologia, sobretudo para um país que
se envaidece de ser um dos fornecedores mundiais de aeronaves. Ainda por
cima, o próprio Tang admite que um comércio desse tipo não tem muito futuro
com a China. Se houver mesmo uma grande demanda, em pouco tempo os chineses
estarão fazendo seus próprios chuveiros. Por isso recomendou que o fornecedor
brasileiro registre a patente na China e posteriormente faça uma joint
venture com uma empresa chinesa para fabricar os chuveiros por lá mesmo.
Desobediência "A China não cumpre os acordos com a Organização
Mundial do Comércio (OMC) e impõe dificuldades para forçar as empresas
a se instalarem lá. Isso aconteceu com a Embraer. E, na hora da compra,
ela privilegia as multinacionais que têm operações na China ", acusa Maurício
Mesquita Moreira, economista do Departamento de Integração do Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID), em Washington. Na interpretação dele, o acesso
brasileiro ao mercado chinês de produtos de alto valor agregado é muito
improvável. Em primeiro lugar porque, de acordo com Moreira, a China faz
questão de adquirir tudo no estado mais primário possível. Mesmo o Chile,
tradicional fornecedor de cobre, sofre porque os chineses se recusam a
importar cobre refinado. "E os obstáculos não acabam depois que se consegue
fechar o contrato ", alerta Moreira, "pois a distribuição é muito complexa
e só quem conta com o apoio do governo consegue atingir o mercado interno.
Uma prova disso é que mesmo as montadoras instaladas na China são proibidas
de possuir revendedoras e obrigadas a lidar com intermediários chineses.
" Por tudo isso, ele aposta que a pauta das exportações brasileiras deve
continuar sem grandes alterações.

