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Edição 12
Outubro/2004

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Comércio Internacional
Muralha chinesa
O Brasil exporta basicamente produtos primários para a China e não consegue romper as barreiras e vender manufaturados de alto valor agregado, o que pode levar a um déficit no comércio com o gigante oriental em 2006


Por Andréa Wolffenbüttel, de São Paulo

Guang Niu/Reuters

O centro de gravidade dos negócios mundiais está se deslocando do Atlântico, onde se manteve nos últimos três séculos, para o Pacífico. A afirmação não é de um alto funcionário do Partido Comunista da China, mas sim do ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, em artigo publicado no jornal The Washington Post, em meados do mês passado. A guinada começou há três décadas, mas se tornou irreversível quando o país mais populoso do mundo decidiu entrar no jogo capitalista e passou a crescer aceleradamente. Em 34 anos, a China saiu de um sistema fechado para a situação atual: atrai volumes crescentes de investimentos e controla cerca de 11% de todo o comércio do planeta. Em 2004, os chineses importaram cerca de 400 bilhões de dólares, mais de quatro vezes o volume total das exportações brasileiras no mesmo período. E qual foi a fatia dessa imensa demanda que coube ao Brasil? Aproximadamente 1,5%, o que representa algo em torno de 5,5 bilhões de dólares.

A dimensão do nosso quinhão pode parecer modesta, mas corresponde rigorosamente à nossa participação no comércio mundial. O que preocupa não é o valor da fatura, mas a descrição das mercadorias. Um olhar sobre nosso comércio com a China dá um banho de água fria no orgulho brasileiro de ter conseguido elevar o valor agregado da pauta de exportações. O modelo café e cana-de-açúcar foi mesmo deixado para trás, mas seu lugar foi ocupado pela dupla soja e minério de ferro, pelo menos quando se trata da China. No ano passado, esses dois produtos representaram 65% de todas as nossas vendas para o mercado chinês. Seguidos por outros com nível de industrialização semelhante, que são pasta de madeira, óleo bruto de petróleo e fumo. Nos primeiros cinco meses de 2005, o cenário se alterou levemente, mas o padrão soja-ferro respondeu por metade das vendas para a China. Se esse é um perfil atípico para o Brasil, como exportador, também é estranho para a China, como importadora. No ano passado, para cada dólar gasto pelos chineses na importação de produtos primários foram consumidos 3,5 dólares na aquisição de produtos industrializados estrangeiros. E por que será que o Brasil não consegue aproveitar melhor o mercado chinês para vender produtos com maior valor agregado?

Como costuma acontecer com as questões relativas à China, a resposta não é simples. Porém, entre as diversas interpretações há um ponto em que todos concordam: o Brasil é um descobridor tardio da China, até mesmo comparado com outros países latino-americanos, como o Chile e o México. "Para dar uma noção do descaso, antes da feira Brasil-China de 2002, o último evento de promoção ao comércio entre os dois países aconteceu em 1986. Foram 16 anos sem nenhuma iniciativa brasileira. Nesse período, outros fornecedores ocuparam o espaço que poderia ser do Brasil ", conta Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China. Apesar do tempo perdido, ele acredita que temos todas as condições para colocar nossos produtos industrializados nos contêineres que partem para a China. Como exemplo, menciona o caso de um fabricante de torneiras e chuveiros elétricos que acaba de fechar uma grande venda. Não se trata exatamente de um produto de alta tecnologia, sobretudo para um país que se envaidece de ser um dos fornecedores mundiais de aeronaves. Ainda por cima, o próprio Tang admite que um comércio desse tipo não tem muito futuro com a China. Se houver mesmo uma grande demanda, em pouco tempo os chineses estarão fazendo seus próprios chuveiros. Por isso recomendou que o fornecedor brasileiro registre a patente na China e posteriormente faça uma joint venture com uma empresa chinesa para fabricar os chuveiros por lá mesmo.

Desobediência "A China não cumpre os acordos com a Organização Mundial do Comércio (OMC) e impõe dificuldades para forçar as empresas a se instalarem lá. Isso aconteceu com a Embraer. E, na hora da compra, ela privilegia as multinacionais que têm operações na China ", acusa Maurício Mesquita Moreira, economista do Departamento de Integração do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington. Na interpretação dele, o acesso brasileiro ao mercado chinês de produtos de alto valor agregado é muito improvável. Em primeiro lugar porque, de acordo com Moreira, a China faz questão de adquirir tudo no estado mais primário possível. Mesmo o Chile, tradicional fornecedor de cobre, sofre porque os chineses se recusam a importar cobre refinado. "E os obstáculos não acabam depois que se consegue fechar o contrato ", alerta Moreira, "pois a distribuição é muito complexa e só quem conta com o apoio do governo consegue atingir o mercado interno. Uma prova disso é que mesmo as montadoras instaladas na China são proibidas de possuir revendedoras e obrigadas a lidar com intermediários chineses. " Por tudo isso, ele aposta que a pauta das exportações brasileiras deve continuar sem grandes alterações.

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