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Edição 10
Agosto/2004

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Uma escola de raiz
No interior de São Paulo uma experiência pedagógica atrai estudantes e seus familiares, é gratificante para os professores e recebe o reconhecimento da Fundação Getúlio Vargas.
O método - Aquele que ensina usando coisas comuns no dia-a-dia das crianças


Por Andréa Wolffenbüttel, de Araraquara, interior de São Paulo

Henrique Santos
Alunos chegam para a aula na escola Hermínio Pagotto, no Assentamento Bela Vista, em Araraquara
Quem visita a Escola Hermínio Pagotto, no assentamento rural Bela Vista, em Araraquara, interior de São Paulo, é recebido com uma cerimônia que não deixa dúvidas sobre a cultura local. Violas em punho, bandeiras, coreografia com os pés sobre a grama e letra de música lembrando que a terra é de quem plantar. O espírito do campo não está somente no cerimonial. Ele se espalha pelos corredores decorados com plantas, pelas paredes pintadas com motivos da terra e especialmente dentro das salas de aula. Galinhas, milho, feijão, sementes e adubo são elementos corriqueiros entre professores e alunos. Há sempre um modo de dar a lição usando os recursos da terra.

Para aprender proporções, a turma do professor Marcos Sônego teve de descascar e lavar mandioca, produzir e embalar farinha e polvilho. A mandioca foi pesada com casca e descascada para verificar qual a fração do peso que corresponde à casca. Depois de batida, coada e prensada, a mandioca virou pó e os alunos calcularam quantos quilos de raiz são necessários para produzir 1 quilo de farinha.

Na hora da embalagem, as crianças viram quantos sacos foram usados para acomodar a produção. Por fim, o melhor momento: avaliar o preço da farinha e ver quanto se pode ganhar com aquela quantidade de mandioca e com o trabalho para transformá-la. "Ensinar assim é diferente de ficar só no giz e no quadro-negro. É palpável. As crianças entendem muito mais", diz o professor Sônego, que chegou à escola no início deste ano.

A Escola Hermínio Pagotto faz parte do projeto Escola do Campo, criado em 2001 para melhorar a qualidade da educação e estancar a perda de alunos. O caso era grave. Há vinte anos havia 31 estabelecimentos rurais de ensino em Araraquara. Hoje restam apenas três - e os alunos, forçados a fazer longas caminhadas para freqüentar as aulas, pouco a pouco foram desistindo. As providências para resolver a questão começaram a ser tomadas em 1998, quando a prefeitura foi gradativamente assumindo as escolas de ensino fundamental que estavam sob a alçada do governo estadual.

A partir de então, buscou-se uma forma de aproximar o ensino do mundo dos estudantes. A experiência deu certo. Desde que foi implantada a nova política didático-pedagógica, a evasão escolar caiu muito. Em alguns casos desapareceu. Na Hermínio Pagotto nenhum estudante abandonou o colégio desde o início de 2004. Ali a palavra de ordem é valorizar o homem do campo, seu ambiente e seu trabalho. Fazer com que os alunos sintam orgulho do que são.

Pé no chão A escola é cercada por jardins, hortas e viveiros que são tão freqüentados quanto as salas de aula. Uma turma do terceiro ano aprende as formas geométricas riscando quadrados e retângulos na terra, onde futuramente serão plantadas hortaliças para a merenda. A confusão é generalizada. Eles esbarram uns nos outros, reclamam que o chão é duro, tropeçam, caem e terminam sujos dos pés à cabeça.

Aliás, essa é uma das características da Escola do Campo: as crianças não estão sempre muito limpinhas. Mas por ali ninguém se importa com isso. Para conviver com tanta informalidade, até mesmo a mestra teve de se adaptar. "Antes eu parecia uma madame, agora venho trabalhar com roupas esportivas e ainda tenho de lavar os pés no final da aula", conta a professora Carla Regina Jellmayer, enquanto tenta controlar a criançada na horta.

Além de servir de palco para as aulas de Geometria, a horta é um instrumento para estimular a diversidade de culturas dentro do assentamento. As crianças aprendem a lidar com diferentes tipos de plantações e acabam levando novas idéias para casa, o que contribui para afastar a prática da monocultura numa região dominada pelo plantio da cana-de-açúcar. No meio da aula, aparece um estudante de outra classe: precisou interromper a aula para colher folhas de guaco, a pedido de sua mãe, que queria preparar um chá contra a tosse.

A colheita foi feita no horto medicinal, entre pés de camomila, hortelã, boldo e outras plantas corriqueiras em qualquer compêndio de remédios caseiros. O horto medicinal faz parte do projeto e tem o importante papel de preservar o conhecimento popular em relação às ervas com poder curativo. Parece que está dando certo. E seu efeito também extrapola os limites do colégio para chegar até as casas das famílias.

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